Não demorou muito para ela tocar no assunto. Começou a reclamar que é difícil demais namorar alguém com a profissão que sua namorada tem. Que ela nunca está disponível, trabalha pra caralho e quando tem folga, está extremamente cansada para qualquer outra coisa que não inclua uma cama (mas naquele sentido que para muitos é o menos interessante em se tratando de cama à dois). Me subiu um calor. Poderia ter sido o vinho. Mas não foi. Foi quase uma indigestão, causada pelo assunto que já me causou muitas outras indigestões ainda muito recentemente.
Acontece que a amo. E não tenho o direito de machucá-la mais com o ledo engado daquela infeliz escolha feita por ela. Respirei fundo. Controlei a ardência da face que aquele assunto me causou, soltei o ar preso nos pulmões por tanto tempo e a olhei fundo nos seus olhos. Mas foi um olhar terno e amoroso. Um olhar que diria, com a melhor das intenções, que isso mudaria um dia. E que tudo daria certo. Quero vê-la feliz. Mas não acredito que ela será neste contexto absurdo. Então sorri pra ela, com todo o meu amor. Pousei meu braço sobre seus ombros e depois de outro longo suspiro disse o nome dela no diminutivo, como faço com todas as pessoas que a mim importam.
Que tudo se exclareça. Para melhor. Uma pessoa como ela merece ser feliz. Merece carinho e atenção. Uma pessoa como ela PRECISA de tudo isso na verdade. E TUDO isso, não é nada demais. Pena que na vida existam outros "valores" que acabam por deturpar o bom das coisas. Ah a vida! Como diria Fernanda Abreu em Speed Racer: a vida nem sempre é boa / a vida nem sempre é boa.
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