domingo, 7 de março de 2010

NÃO QUERO SABER

Ela me ligou. Perguntou onde estávamos. Estávamos no La Tartine. Vem pra cá. Hoje tem um couscous marroquino ótimo. Você vai amar. Ok. Estou indo. Estarei aí em 15 minutos, disse ela. E chegou com o cabelo molhado, recém saída do banho. Toda bonitinha, de roupa nova. Uma fofa. Até sei o que passa pela cabeça dela: "preciso ser desejada por ela, parecer jovem - como ela" e todos os blá-blás que sempre veem na sequência. Um bobagem. Se ela soubesse que são exatamente essas preocupações que a fazem menos interessante...

Não demorou muito para ela tocar no assunto. Começou a reclamar que é difícil demais namorar alguém com a profissão que sua namorada tem. Que ela nunca está disponível, trabalha pra caralho e quando tem folga, está extremamente cansada para qualquer outra coisa que não inclua uma cama (mas naquele sentido que para muitos é o menos interessante em se tratando de cama à dois). Me subiu um calor. Poderia ter sido o vinho. Mas não foi. Foi quase uma indigestão, causada pelo assunto que já me causou muitas outras indigestões ainda muito recentemente.

Acontece que a amo. E não tenho o direito de machucá-la mais com o ledo engado daquela infeliz escolha feita por ela. Respirei fundo. Controlei a ardência da face que aquele assunto me causou, soltei o ar preso nos pulmões por tanto tempo e a olhei fundo nos seus olhos. Mas foi um olhar terno e amoroso. Um olhar que diria, com a melhor das intenções, que isso mudaria um dia. E que tudo daria certo. Quero vê-la feliz. Mas não acredito que ela será neste contexto absurdo. Então sorri pra ela, com todo o meu amor. Pousei meu braço sobre seus ombros e depois de outro longo suspiro disse o nome dela no diminutivo, como faço com todas as pessoas que a mim importam.

Que tudo se exclareça. Para melhor. Uma pessoa como ela merece ser feliz. Merece carinho e atenção. Uma pessoa como ela PRECISA de tudo isso na verdade. E TUDO isso, não é nada demais. Pena que na vida existam outros "valores" que acabam por deturpar o bom das coisas. Ah a vida! Como diria Fernanda Abreu em Speed Racer: a vida nem sempre é boa / a vida nem sempre é boa.

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