quinta-feira, 10 de dezembro de 2009

SOBRE A VIDA E A DROGA QUE MATA SEM DOR

Ela dizia-se cansada. Cansada em procurar um sentido para as coisas que acontecem ao seu redor. Falava sobre a incapacidade de dormir que a assola. Falava sobre o pessimismo em seus pensamentos mais profundos. E sobre o amigo que comprou um remédio que mata sem que se sinta dor. A conversa não terminou porque ela saiu sem que eu percebesse. Aquilo me intrigou. Afinal, se morrer é a finalidade, porque preocupar-se com a dor? Não seria mais fácil se jogar de algum lugar bem alto? Dar um tiro na cabeça? Porque morrer sem sentir dor? Preocupação estranha vinda de uma pessoa com tendências suicidas. Fiquei pensando sobre isso. Pensei sobre a vida. Pensei sobre a morte. E não vi, mesmo concordando que a vida na essência é um porre, necessidade alguma de desistir da falta de sentido que guia os nossos dias. Porque a falta de sentido pode esconder surpresas deliciosas. E eu quero poder sentí-las. Olhando para trás vi que fui muitas ao longo dessa minha vida de pouca idade vivida. Como posso querer parar de brincar agora se não sei qual de mim posso vir a ser no futuro? As possibilidades são infinitas. Mesmo a vida sendo um saco lá no fundo.

terça-feira, 25 de agosto de 2009

LOUCURA NOSSA DE CADA DIA

Muito frio. Muito cinza. Silêncio que sai da boca. Barulho que vai para a tela. Hiperconectividade. A luz que dela tela clareia meu rosto. Cansaço nos olhos. Dores nas costas. Mas a satisfação plena de estar fazendo o que é certo. Conexões, links, sincronismo virtual e muito pouco contato com o mundo real. Meu universo é o meu quadrilátero. Pequeno, mas para mim basta. Os seres humanos, em sua maioria, me cansam. Muita banalidade e alienação. Feliz com meus bichos, humanos ou não, mas meus. O resto que se exploda. Me aqueça neste inverno. E só.

terça-feira, 28 de julho de 2009

quarta-feira, 8 de julho de 2009

NÃO ME INTERESSAM SUAS AFLIÇÕES

Ninguém mais sai em busca de verdades. Tudo são mentiras que servem, de alguma maneira ou de outra, para iludir. Mesmo que momentaneamente. Mesmo que no fundo a verdade grite por socorro, querendo sair. Eu não sei ser assim, ninguém me ensinou esse caminho mais fácil e seguro de viver a vida. Estou cansada dos sorrisos amarelos alienados e das teorias desconexas de vida e morte, amor e ódio. Todos têm motivo para guardar alguns segredos, mas nem todos os segredos escondidos são de alguma valia. Perdi meu motivo em algum lugar ou talvez eu nunca tenha tido um. O que sei é que tudo é um grande saco, inclusive seus medos e aflições. A liberdade, quando real, intimida. E o egoísmo humano quer sempre dar um jeito de tirá-la de você. A minha liberdade, mesmo que irreal dentro deste contexto absurdo de vida contemporânea, é minha. Falsa, torta, amarga ou doce, a liberdade é minha e foi dada por mim para mim mesma porque só eu tenho o domínio real sobre as coisas da minha vidinha idiota. Não envolve terceiros. Não preciso de terceiros. Preciso de todo o espaço do mundo para respirar o ar sujo e comer o pão murcho que preciso para sobreviver atolada nesta lama negra e gélida.

segunda-feira, 29 de junho de 2009

LOST IN YOUR TRANSLATION

Me peguei pensando em você e nas frases loucas que diz. Me peguei distante do mundo e de tudo que há dentro dele. Me peguei perdida entre galáxias e estrelas tentando te entender. Por que ainda o faço? A complexidade da sua inconstância quase beira a insanidade. E quanto mais me dou conta disso, mais me vejo desejando você. Em vão? E porquê? Ainda me vejo acorrentada à sua vaidade. Ainda dói quando te respiro e já não quero mais que isso aconteça.

sexta-feira, 26 de junho de 2009

SEMPRE O AMOR




Quantos nomes surgirão ainda em lembranças que estão por vir? Quantos corpos, quantas formas, quantas cores? Quantos cheiros? Haverá mais desencontros? Haverá solidão? O amor é a maior cretinice dentro da condição humana. Presente da vida para nós mesmos. É a piada que ninguém ri. Amor é teste de paciência, reviravoltas à flor da pele, ansiedade amarga que independe de nossa própria vontade. O amor mais machuca que conforta. E a reciprocidade é sinicamente rara. Por que ainda assim não nos cansamos nunca de tentar, de destrinchar e vasculhar almas alheias cheias de traumas e vulnerabilidades? Porque somos todos tolos e essa é nossa condição. Estamos todos fadados a isso. É inevitável. É a nossa maior fraqueza. Está cravado no peito e não tem jeito.

sábado, 23 de maio de 2009

NO ESCURO DA NOITE.

Você vai estar lá, escondida entre a fumaça e a multidão multi-colorida. No momento em que meus olhos cruzarem os seus, em meio a tantos outros olhares menos interessantes, nesse momento - nesse dado momento - meus pulmões vão ficar sem ar. Minhas bochechas vão corar porque as malditas sempre fazem isso. E você vai sentir junto comigo a inquietação quente das palmas das minhas mãos. Sem saber. 

Estaremos longe e será preciso muita coragem para tomar uma atitude. Porque a distância traz junto com ela tempo suficiente para pensar e voltar atrás. Para mudar de idéia, desistir. A música vai sugerir outra atmosfera. Sugerirá algo contrário ao que nossos corpos inconscientemente insistem em fazer. Que é se encontrarem. Se aproximarem até um poder sentir o calor do outro. Até a ponta de um dedo fino tocar a face fina, quente e corada. Até os corpos se juntarem de fato e até tudo se tornar maravilhosamente irreversível. E durar até o dia seguinte, quase no meio da manhã fria porém ensolarada em que eu perguntarei pela primeira vez o seu nome.

domingo, 29 de março de 2009

DEPOIS DO SILÊNCIO

O que vem? O quem depois do silêncio? Mais silêncio. E raio de sol entrando pela fresta, rasgando o escuro do quarto. O que vem depois do silêncio? Talvez música e com certeza gatos. O que vem? Amor. Amor de mim para mim mesma. Amor só meu, inteiramente incondicional... Cara, como eu me amo! 

segunda-feira, 16 de março de 2009

V.


Estou com saudades suas. Precisamos tomar café para falarmos de música e do quanto somos pequenos e insignificantes. Estou com saudade do seu mix coca-cola/marlboro/café/trip-hop. Sinto falta dos adjetivos que usa, da conotação intensa e sincera que você dá a cada um deles. Saudade das suas bagunças amorosas e suas eternas expectativas sentimentais. Saudade do silêncio íntimo que se instaura. Silêncio reflectivo. Sempre ao som de boa música. Saudade do jeito que mexe a cabeça - no ritmo - enquanto contempla a música que você escolheu para tocar. Saudade da áurea de tristeza que se estabelece naturalmente e que, por ser triste, está longe de ser feia ou amarga. Amargo mesmo só o gosto na boca quando o assunto é a verdade que nunca quer calar. Sobre nossa realidade idiota e medíocre que tentamos sabotar. Saudade da sua sensibilidade que te corrói a alma lentamente e aos poucos e sem que você saiba, faz de você mais interessante e melhor a cada dia. Saudade da profundidade escura e opaca a qual estamos condicionadas a viver enquanto caminharmos pelos destroços deste mundo feio e sem sentido. Saudade da indignação que você exala pelos poros. E da bolha de verdade que te protege. Vou te ligar essa semana...

domingo, 15 de março de 2009

O VELHO E O FEIO


Prefiro o desbotado, o velho e furado. Prefiro o cinza, o sem cor. Prefiro os pombos cheios de doenças e piolhos. Prefiro os que bebem pinga do que os que bebem wisky. Prefiro o couro trincado e opaco. Prefiro a solidão. Prefiro os que escondem no fundo de suas entranhas a imensa dor que é respirar. Prefiro os meus que os teus. 

quinta-feira, 12 de março de 2009

TRADIÇÃO




Conheci uma garota que era do barbalho
Uma garota do barulho
Namorava um rapaz que era muito ineligente
Um rapaz muito diferente
Inteligente no jeito de pongar no bonde
E diferente pelo tipo

De camisa aberta e certa calça americana
Arranjada de contrabando
Sair do banco e desancando despontar do bonde
Sempre rindo e sempre cantando

Conheci uma garota que era do barbalho
Essa garota do barulho
No tempo em que Lessa era goleiro do Bahia
Um goleiro, uma garantia
No tempo em que a turma ia procurar porrada
Na base da vã valentia
No tempo que preto não entrava no bahiano
Nem pela porta da cozinha

Conheci uma garota que era do barbalho
Num lotação de liberdade
Que passava pelo ponto dos quinze mistérios
Indo do bairro pra cidade
Pra cidade quer dizer cidade do terreiro
Pra onde todo mundo ia
Todo dia todo dia todo santo dia
Eu, minha irmã e minha tia

No tempo quem governava era Antônio Balbino
No tempo que eu era menino
Menino que eu era e veja que eu já reparava
Numa garota do barbalho
Reparava tanto que acabei reparando
No rapaz que ela namorava
Reparei que o rapaz era muito inteligente
Um rapaz muito diferente

Inteligente no jeito de pongar no bonde
E diferente pelo tipo
De camisa aberta e certa calça americana
Arranjada de contrabando
Sair do banco e desbancando, despongar do bonde
Sempre rindo e sempre cantando
Sempre lindo e sempre sempre sempre
Sempre rindo e sempre cantando
Sempre lindo e sempre

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2009

O TOMBO




- Sua canela está roxa.

- Sim, eu sei. Percebi.

- Vem cá, dá a perna aqui.

- Pra quê?

- Tenho certeza que se eu der um beijo sára!

- ...

- É sério. Me dá sua perna aqui.

- Não.

- Vem cá vem...

- Por favor, não! Não encoste em mim.

- Quanta bobagem, não há mal algum nisso.

- Eu não quero que me encoste.

- E por que tudo isso?

- Porque isso tudo é um pretexto. Odeio pretextos. E além do mais, não quero nada com você.

- Como você é careta!

- Seletiva.

sábado, 31 de janeiro de 2009

YOU ARE SO BORED



Nós não temos mais assunto. Ontem você me deu preguiça. Subi a ladeira com a mente em branco, frustrada com o que você hoje se tornou. Eu não quero ser como você. Também, porquê eu iria querer, à final de contas? Você se anulou por completo. Você se tornou triste. O próprio fracasso. Nem sua habilidade de tecer argumentos convence mais. Não consigo sentir nem pena. O que esperar de você no futuro? Mais frustrações? Estou cansada de você. Cansada. E só.

terça-feira, 27 de janeiro de 2009

CUNVERSA DE MINEIRO


- Essa chuvinha está um delícia, não acha?

- Acho. Está perfeita.

- Você já desligou o frango?

- Desliguei, senão vai secar demais.

- Tem razão, bem lembrado. O milho e o arroz estão prontos e no ponto!

- É e a gente precisa tirar um pouco do caldo para fazer aquele molhinho nervoso de pimenta.

- É só nele que estou pensando...

- Ah sim? E por quê?

- Eu cortei as dedinhos de moça.

- Sei. E o que tem?

- Lambi os dedos sem querer...

- Puts!

- É uai, o baseado não tá ardido não?

sábado, 17 de janeiro de 2009

YOU MUST LIVE YOUR LIFE




As pessoas lá embaixo parecem formigas. Ou melhor, deixe-me corrigir essa primeira sentença: as pessoas lá embaixo parecem carrinhos de flexão. Andando sem rumo, trombando nas paredes, mudando sempre a direção e indo a lugar algum. A velocidade das coisas lá embaixo é bem maior que a daqui de cima, que a daqui de dentro. Enquanto o caos mecânico e alienado se espalha e contamina a todos os seres humanos desprotegidos, eu aqui caminho em câmera lenta. Em slow motion, como gostam de dizer as pessoas "cools" e seus "must haves" and "it girls". Estou só de camiseta. Uma bem grande e velha. Meus cabelos continuam do mesmo jeito de quando eu acordei, porém bem maiores que meses atrás. A tv está ligada, bobagens americanas. Até a coisa mais séria deles consegue ser uma bobagem. Eles parecem ter parado para sempre nos anos oitenta com seus blushes e ombreiras quadradas. Seus permanentes nos cabelos com franja e suas roupas com cores cítricas. 

Desligo a TV, coloco uma música, abro uma cerveja. O tempo fecha lá fora. O céu fica bem escuro e em poucos instantes a chuva começa. Brisa fria. Cerveja gelada. Música de qualidade incontestável. Gatos esparramados ao meu redor. E as pessoas lá embaixo ainda se trombando. Vindas de lugar nenhum, indo a lugar algum. Pessoas desesperadas pelos "must have's" sonhando com suas "it girls", tentando serem "cools". E eu aqui, quietinha, feliz, assistindo a tudo com um risinho sínico no canto da boca enquanto acompanho cantarolando a canção, com os braços apoiados no parapeito da varanda, sentindo o vento no rosto e agradecendo ao universo o fato da vida ser feia de escolhas.

Shalala-lá!...