
As pessoas lá embaixo parecem formigas. Ou melhor, deixe-me corrigir essa primeira sentença: as pessoas lá embaixo parecem carrinhos de flexão. Andando sem rumo, trombando nas paredes, mudando sempre a direção e indo a lugar algum. A velocidade das coisas lá embaixo é bem maior que a daqui de cima, que a daqui de dentro. Enquanto o caos mecânico e alienado se espalha e contamina a todos os seres humanos desprotegidos, eu aqui caminho em câmera lenta. Em slow motion, como gostam de dizer as pessoas "cools" e seus "must haves" and "it girls". Estou só de camiseta. Uma bem grande e velha. Meus cabelos continuam do mesmo jeito de quando eu acordei, porém bem maiores que meses atrás. A tv está ligada, bobagens americanas. Até a coisa mais séria deles consegue ser uma bobagem. Eles parecem ter parado para sempre nos anos oitenta com seus blushes e ombreiras quadradas. Seus permanentes nos cabelos com franja e suas roupas com cores cítricas.
Desligo a TV, coloco uma música, abro uma cerveja. O tempo fecha lá fora. O céu fica bem escuro e em poucos instantes a chuva começa. Brisa fria. Cerveja gelada. Música de qualidade incontestável. Gatos esparramados ao meu redor. E as pessoas lá embaixo ainda se trombando. Vindas de lugar nenhum, indo a lugar algum. Pessoas desesperadas pelos "must have's" sonhando com suas "it girls", tentando serem "cools". E eu aqui, quietinha, feliz, assistindo a tudo com um risinho sínico no canto da boca enquanto acompanho cantarolando a canção, com os braços apoiados no parapeito da varanda, sentindo o vento no rosto e agradecendo ao universo o fato da vida ser feia de escolhas.
Shalala-lá!...